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Mejía, F. y Farach, N. Desastres naturais e tecnologias de informação e comunicação: uma breve revisão da literatura acadêmica com enfoque nas mudanças climáticas. (2013).

Mejía, F. y Farach, N. Desastres naturais e tecnologias de informação e comunicação: uma breve revisão da literatura acadêmica com enfoque nas mudanças climáticas. (2013).

Introdução

Desde dos embates cíclicos do furacões no Caribe até a destruição causada por terremotos, a América Latina e o Caribe tornou-se uma região altamente vulnerável aos desastres naturais. De acordo com o escritório das Nações Unidas para a Redução de Riscos e Desastres (Unisdr), esta região sofreu trinta desastres naturais em 2012, que afetaram quatro milhões de pessoas, causando a morte de 548 indivíduos e resultando em perdas econômicas de bilhões de dólares. Muitos destes desastres, como as secas, inundações, deslizamentos e desabamentos de terra, estão relacionados com as mudanças climáticas. Frequentemente, grande parte dos danos econômicos e humanos destes desastres são sofridos cidadãos marginalizados de todas as sociedades latino-americanas e caribenhas e por isso é necessário que se realize uma melhor gestão de riscos dos desastres que, vá além do âmbito sanitário, e contemple as múltiplas facetas da inequidade social existente na região.

 

Em função desta vulnerabilidade, os governos da região tem implementado esforços para melhorar a capacidade de respostas a emergências desta natureza. Uma da áreas que tem despertado grande expectativa em função do seu potencial é a área das tecnologias de informação e comunicação (TICs). O objetivo deste artigo é conhecer melhor a evidência científica existente sobre o uso das TICs em respostas aos desastres naturais e nos impactos das mudanças climáticas, incluindo a prevenção a perdas humanas e materiais. 

 

Métodos

Foram realizadas buscas independentes de publicações científicas internacionais nas bases de dados do Centro Regional de Informação e Documentação em Saúde da OMS/OPAS (BIREME), PubMed e Medline.  

Os termos inicialmente utilizados para a busca no PubMed foram Desastres naturales + tecnologías de información y comunicación+ Latinoamérica (em português: Desastres naturais + tecnologias de informação e comunicação + América Latina), e outra busca similar para o Caribe.  Ambas buscas não geraram resultados, então optamos por uma outra estratégia utilizando palavras chaves sem especificar a região, desta forma:

  • Desastres naturales + tecnologías de información y comunicación (em português: Desastres naturais + tecnologias de informação e comunicação)

Esta busca gerou 135 artigos.  Revisamos os artigos para determinar os mais relevantes e que atendiam os nossos objetivos, e obtivemos quatro artigos.

Para obter informação sobre mudança climática utilizamos os seguintes temas: 

  • Tecnologías de información y comunicación + cambio clímático (em português: Tecnologias de informação e comunicação + mudança climática): 16 resultados,  3 relevantes
  • eSalud+ cambio climático (eSaude + mudança climática) : 4 resultados, todos relevantes mas somente 3 resumos disponíveis. 
  • Crowdsourcing+clima: 3 resultados, nenhum relevante.   

A busca realizada nas bases de dados do Centro Regional de Informação e Documentação em Saúde da OMS/OPAS (BIREME) foram as seguintes: Desastres naturales + tecnologías de información y comunicación (em português: Desastres naturais + tecnologias de informação e comunicação), 37 resultados dos quais 5 foram identificados para análise, 2 dos quais  foram encontrados na busca no PubMed.

Com relação as Mudanças Climáticas, foi realizada a seguinte busca na Bireme:

  • Tecnologías de información y comunicación + cambio clímático (em português: tecnologias de informação e comunicação + mudança climática):  4 resultados, nenhum relevante
  • eSalud+ cambio clímático (eSaude + mudança climática): 1 resultado, 1 relevante. 
  • Crowdsourcing + clima: 2 resultados, nenhum relevante. 

Foi realizado também uma busca no Medline por meio de uma estratégia de seleção de categorias chaves no dicionário de dados o tesauro: a primeira relacionada com tecnologias de informação (tecnologias de informação, internet, redes sociais), a segunda com desastres (emergências, trabalhos de socorro, planejamento para desastres, terremotos, inundações, tempestades ciclônicas, incidentes com vítimas maciças, trabalhos de resgate) e a terceira relacionada com geografia (América Latina, América Central, América do Sul, México e Caribe). Posteriormente, foram identificados os artigos que foram exibidos como resultado em ao menos duas das três categorias chaves mencionadas anteriormente, chegando a 13 artigos.

 

Os resumos das buscas relevantes foram salvos e organizados em um documento de formato Word para facilitar a leitura e análise. Posteriormente, fizemos a leitura dos mesmos para identificar temas recorrentes que poderiam nos ajudar a cumprir nosso objetivo. 

 

Discussão

A busca de artigos sobre desastres naturais e as TICs gerou um amplo resultados, um grande numero de artigos buscava relatar a aplicação das tecnologias nos serviços de telemedicina durante desastres naturais, o uso de TIC para a gestão de informação clínica eletrônica ou  buscava relatar como o uso das TIC contribuiu para melhorar o desempenho organizacional das instituições que dão respostas aos desastres naturais. Com referência a estas organizações, é bom ressaltar que ‘a maioria das pesquisas sobre Gestão de Desastres (DM, na sigla em Inglês) incluem as TICs no apoio ao processo de colaboração mais que do um processo de colaboração que ofereça  padrões e fluxos de informação’.


Poucos artigos enfocam o uso das TICs como parte da resposta aos desastres naturais que vá além do âmbito clínico.  Entre eles estão os que durante a fase de preparação do processo de gestão de  emergência, ‘os planos de emergência estão desenvolvidos para estabelecer, entre outros procedimentos, rotas de fuga de emergência e evacuação. As TICs podem apoiar e melhorar estes procedimentos ao oferecer informação acessível, atualizada e apropriada a todas as pessoas na zona afetada’. 

 

Um aspecto importante enfatizado nestes documentos é o papel das redes sociais, descritas como o novo fórum de inteligência coletiva, convergência social e ativismo comunitário”. Durante a resposta ao terremoto do Haiti em 2010, as redes sociais foram um elemento chave para a difusão de informação sobre o desastre e para a coleta de doações (a Cruz Vermelha Americana reportou doações via mensagens de texto superiores a $5 milhões nos dois dias seguintes ao terremoto). Outro estudo examinou uso de redes como Facebook e Twitter nas primeiras semanas de cobertura deste terremoto e buscou avaliar as mudanças na intensidade, relacionando-as com as contribuições, a assistência a emergências e ações de caridade, encontrando uma correlação positiva. Experiências de outras regiões do mundo descrevem usos similares, como foi o caso de um tufão em Taiwan: “as redes sociais foram úteis para auxiliar os moradores das comunidades, os profissionais e as equipes de resgate e de emergência e as agências governamentais na coleta e difusão de informação em tempo real, sobre o recrutamento de voluntários  e a alocação de suprimentos de socorro.”  Também foram descritos projetos pilotos para mobilização social que permitiram identificar e vincular efetivamente as pessoas chave nas etapas críticas dos desastres, mencionando o potencial das redes sociais “em situações nas quais é necessário encontrar a pessoas que tenham informações ou possuem habilidades muito específicas, como a busca de médicos em caso de desastres, ou a busca de pessoas desaparecidas”.  Essas ações tem sido incluídas dentro de um novo campo emergente chamado 'humanitarismo digital’. 

 

Um aspecto que merece destaque refere-se ao uso da internet como apoio aos sistemas de vigilância pós-desastre natural, igualmente em referência ao terremoto do Haiti, assim como o benefício psicológico causado aos membros de comunidades afetadas por um desastre natural quando participam em atividades de resposta realizadas por meio das redes sociais, como as descritas no parágrafo anterior: “As vítimas do desastre mostram uma necessidade psicológica de contribuir, e ao fazê-lo, estão em melhores condições de lidar com a situação. As populações afetadas recuperam sua capacidade a substituir a impotência pela dignidade, controle e a responsabilidade individual e coletiva. 


A maioria dos artigos que abordavam os desastres naturais e as mudanças climáticas, descreviam também algumas limitações e desafios no uso das TICs nas respostas aos desastres naturais, mencionando entre eles, a validade e confiabilidade da informação compartilhada, a viabilidade de sua implementação, a privacidade da informação pessoal e a possibilidade de expansão em uma maior escala, especialmente em locais com poucos recursos econômicos. Um artigo menciona que "os funcionários públicos costumam considerar que as comunicações peer to peer (ou entre pares, como nas redes sociais)... tem potencial para difundir informação falsa e rumores... na ausência dos controles normais e contrapesos que regulam os meios de comunicação tradicionais, podem ocorrer violações aos direitos de privacidade”.

 

Entre os poucos artigos que discutiam a utilização das TICs durante os desastres naturais além do âmbito clínico, chama a atenção que o foco deles era a resposta aos desastres e a melhoria da capacidade e da oportunidade de resposta. Nós não identificamos qualquer artigo que discutisse explicitamente a utilização das TICs para a prevenção de perdas humanas e materiais durante os desastres, com enfoque nos determinantes sociais da saúde (DSS), especialmente aqueles que podem influenciar o grau de vulnerabilidade das pessoas como, por exemplo, o nível socioeconômico e local de residência.

 

Especificamente em relação às mudança climáticas, os escassos artigos identificados focaram em:

a) Melhoria da qualidade e oportunidade das atividades de vigilância relacionadas com a mudança climática por meio de uma melhor comunicação e crowdsourcing.

b) Redução das emissões de dióxido de carbono mediante a ampliação dos serviços de telemedicina,  e redução das deslocações nas atividades da saúde. (Descritas como TICs verdes),

Novamente, e igualmente no que se refere ao tema de desastres naturais em geral, o enfoque nos DSS é difícil de visualizar. Esta aparente ausência dentro da literatura poderia indicar que não estão implementando intervenções que contemplem os DSS a partir de uma perspectiva explícita de gestão de catástrofes, que estão implementando mas que não se escrevem artigos acadêmicos sobre elas, ou que as intervenções que executam este tipo de trabalho incidem de alguma maneira nos DSS mas não apresentam uma perspectiva explícita de prevenção de catástrofes.

Contudo, mesmo quando foram encontradas publicações que abordam explicitamente o uso das TICs nas estratégias de mitigação e adaptações as mudanças climáticas é plausível assumir que existem publicações relacionadas indiretamente com mudanças climáticas e que fazem uso das TICs como parte de seus planejamentos. Ou seja, publicações que abordam a implementação das TICs em atividades da sociedade que possuem uma relação direta ou indireta com as causas identificadas das mudanças climáticas.

Devido ao acima exposto, para futuras revisões da literatura na tentativa de analisar a relação TIC-alterações climáticas-catástrofes naturais, seria oportuno abordar os possíveis tópicos. XXXXX  excedem a finalidade deste comentário, porque eles não têm uma articulação imediata e direta com o tema central, mas se eles fazem parte dos fatores determinantes das alterações climáticas e a relação entre as mudanças climáticas e os desastres naturais :

  • O desenvolvimento de sistemas antecipados de alerta para desastres naturais que implementem TICs em celulares e redes sociais.
  • A diminuição do uso de transporte motorizado como consequência do teletrabalho, da educação virtual ou como consequência, por exemplo, do uso de aplicativos para 'smart phones' que fomentem por exemplo, a atividade física e o aumento do uso de bicicletas.
  • O uso das TICs em campanhas de prevenção e promoção que ajudem a reduzir o número de usuários dos serviços de saúde, contribuindo para a redução do consumo de energia neste setor.
  • O uso das TICs para a criação de comunidades virtuais de prática na área das mudanças climáticas e desastres naturais que facilitem o intercâmbio entre pesquisadores, de tomadores de decisões, etc. 
  • O uso das TICs na agricultura sustentável e ambientalmente correta
  • O uso das TICs nas campanhas de conscientização sobre o impacto das atividades turísticas no meio ambiente e sua estreita relação com a mudança climática e os desastres naturais.

Do mesmo modo pode-se pensar na relação equidade-TICs-mudanças climáticas + desastres naturais. Na necessidade de assumir que as atividades que buscam a mitigação e adaptação aos impactos das mudanças climáticas e desastres naturais, tenham um enfoque, não necessariamente explícito, do impacto sobre as populações mais vulneráveis. Ou seja, tenham finalmente um componente de equidade. Se essa atividades, também incluem o uso das TICs, é possível estabelecer uma relação entre equidade, TICs e mudanças climáticas.

 

[i] Agencia EFE, Desastres naturales afectaron a cuatro millones de latinoamericanos en 2012.  Accesado el 15 de octubre de 2013, disponible enhttp://www.efe.com/efe/noticias/america/sociedad/los-desastres-naturales-afectaron-cuatro-millones-latinoamericanos-2012/2/13/1992274,

[ii] Estellés Arolas, E.; González Ladrón-de-Guevara, F. (2012) Towards an integrated crowdsourcing definition. Journal of Information Science (aceptado y pendiente de publicación).  El crowdsourcing es un tipo de actividad en línea participativa en la que una persona, institución, organización sin ánimo de lucro o empresa, propone a un grupo de individuos mediante una convocatoria abierta flexible la realización libre y voluntaria de una tarea.

[iii] Levy, G., Blumberg, N., Kreiss, Y., Ash, N., & Merin, O. (2010). Application of information technology within a field hospital deployment following the January 2010 Haiti earthquake disaster. Journal of the American Medical Informatics Association : JAMIA, 17(6), 626–30. doi:10.1136/jamia.2010.004937

[iv] Marincioni F. (2007) Information technologies and the sharing of disaster knowledge: the critical role of professional culture. Disasters. 2007 Dec;31(4):459-76.

[iv]Information technologies and the sharing of disaster knowledge: the critical role of professional culture.

[v] Sagun, A., Bouchlaghem, D., and Anumba, C. J. (2009). A scenario-based study on information flow and collaboration patterns in disaster management. Disasters, 33(2):214-238.

[vi] Aedo, I., Yu, S., Díaz, P., Acuña, P., & Onorati, T. (2012). Personalized alert notifications and evacuation routes in indoor environments. Sensors (Basel, Switzerland), 12(6), 7804–27. doi:10.3390/s120607804

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[x] Rutherford A, Cebrian M, Rahwan I, Dsouza S, McInerney J, Naroditskiy V, Venanzi M, Jennings NR, Delara JR, Wahlstedt E, Miller SU. (2013) Targeted Social Mobilization in a Global Manhunt. PLoS One. 2013 Sep 30;8(9):e74628.

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[xiv] Henneken R, Helm S, Menzel A. (2012) Meteorological influences on swarm emergence in honey bees (Hymenoptera: Apidae) as detected by crowdsourcing.Environ Entomol. 2012 Dec;41(6):1462-5. doi: 10.1603/EN12139.

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