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Igualdade de Gênero na Saúde Pública, um grande desafio para as Tecnologias de Informação e Comunicação na Região da América Latina e Caribe

Igualdade de Gênero na Saúde Pública, um grande desafio para as Tecnologias de Informação e Comunicação na Região da América Latina e Caribe

 

O mundo tem mudado radicalmente nas últimas décadas. O aparecimento e rápido desenvolvimento de diversas tecnologias de informação e comunicação (TICs) tem transformado a forma de pensar das comunidades e a maneira com que se relacionam entre si. O reconhecimento da potencial contribuição das TICs para a melhoria do bem-estar e da saúde da população é ilimitado. A igualdade de gênero é uma questão relevante quando relacionamos TICs com atendimento à saúde. A Quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres, realizada em Pequim em 19951 definiu os meios de comunicação e as novas tecnologias (TICs) como setores cruciais para o alcance de uma maior igualdade, democracia e justiça social. Alguns estudos internacionais revelam que não só existe diferença no acesso à internet entre homens e mulheres, como também diferenças no seu uso. Os homens tendem a utilizá-la mais para consumo e lazer enquanto as mulheres a utilizam para acessar serviços de conteúdo prático e social1.

Há várias lacunas entre gêneros que exigem atenção: (a) lacunas relacionadas à distribuição desigual dos determinantes sociais da saúde (DSS) e atendimento à saúde da mulher2, em particular no acesso a serviços, (b) lacunas relacionadas ao uso desigual de TICs pelas mulheres (a “lacuna digital”), (c) lacunas em tópicos da saúde pública que nem sempre são abordados de forma adequada e de acordo com as necessidades femininas. Com respeito a primeira lacuna relacionada aos DSS, existe uma limitada oferta de empregos de longo prazo para as mulheres na América Latina e no Caribe, posto que mulheres com falta de formação tendem a obter trabalhos temporários e ganhar salários menores em comparação aos homens  e com escassa proteção social e sanitária. As expectativas predominantes relacionadas às funções de gênero afetam o grau de escolaridade das mulheres, resultando em uma alta porcentagem de emprego no setor informal e taxas de desemprego. Isto, por sua vez, limita enormemente a capacidade das mulheres de pagar por serviços de saúde.

Em termos das questões de igualdade de gênero na saúde pública e no uso potencial das TICs, alguns estudos abordam como as TICs poderiam ser usadas, em termos práticos, para superar as barreiras de acesso ao atendimento à saúde relacionadas à questão de gênero. Uma recente revisão da literatura conduzida pelo eSAC3 aponta para o papel de fatores socioeconômicos na previsão dos níveis de desigualdade de gênero e dos piores resultados na saúde das mulheres. O potencial das TICs não tem aproveitado ao máximo este tema, mas poderia se converter em um mediador crucial na redução das desigualdades de gênero na saúde, ao facilitar o compartilhamento de informação dentro das comunidades, mesmo quando elas não estão localizadas próximas uma das outras.

Como pode ser visto através das três lacunas descritas acima, apesar das melhorias significativas na longevidade e na saúde das mulheres, uma parte da população feminina na América Latina e no Caribe continua vivenciando condições inferiores de saúde. Este aspecto é particularmente relevante no contexto dos determinantes sociais da saúde, sobretudo no que se refere à pobreza e às questões de gênero. A igualdade de gênero efetiva só será alcançada se a interconexão entre pobreza, relações de gênero e a atenção à saúde for compreendida e abordada como um todo. Para seguir em frente, as políticas de atenção à saúde na América Latina e no Caribe precisarão contemplar essa tríade, a fim de estabelecer condições de igualdade entre os sexos e ampliar o acesso ao atendimento à saúde, particularmente entre mulheres empobrecidas e marginalizadas4.

Em função de sua natureza multifacetada, as TICs apresentam possibilidades interessantes para a melhoria do acesso aos serviços para todos os grupos, especialmente aqueles grupos que têm sido tradicionalmente excluídos do acesso, como as mulheres e as meninas. Na atualidade, a maioria das iniciativas centradas nas TICs na América Latina e no Caribe procuram melhorar o domínio tecnológico das mulheres ou abordar assuntos de política e pesquisa de alto nível. Poucos projetos utilizam as TICs para ampliar o acesso ao atendimento à saúde de mulheres indígenas ou mulheres marginalizadas de zonas remotas, ou para incorporar as TICs na atenção à saúde e nas políticas de gênero nos níveis nacionais e subnacionais. É necessário iniciativas que tenham um efeito multiplicador das TICs para gerar a inclusão das mulheres e, ao mesmo tempo, melhorar o acesso ao atendimento à saúde tanto no nível prático como no normativo2.

Dada a informação disponível sobre as diversas dificuldades que as mulheres enfrentam para melhorar sua saúde e bem-estar, juntamente com o reconhecido potencial das TICs, algumas recomendações podem ser feitas: (a) a inclusão das mulheres no uso das TICs deve estar explícita nas políticas locais da América Latina e do Caribe; b) A capacitação adaptada e o desenvolvimento de conteúdos sensíveis às questões de gênero deve ser fortalecidas na América Latina e no Caribe e em nível mundial; c) as organizações devem incluir as mulheres na tomada de decisões quanto ao uso e desenvolvimento das TICs para reduzir tanto a lacuna digital como as lacunas existentes na saúde pública e nos determinantes sociais da saúde (DSS).


Dra. Gladys Faba, consultora em gestão do conhecimento da OPAS para o Projeto eSAC

Dra. Báltica Cabieses, consultora em equidade em saúde da OPAS para o Projeto eSAC

 

O eSAC é um projeto desenvolvido conjuntamente pelo

International Development Research Centre (IDRC), pela Universidade de Toronto e pela Organização Pan-Americana da Saúde que visa contribuir para a melhoria da saúde e o do bem-estar da população menos favorecida da América Latina e do Caribe por meio da aplicação de tecnologias de informação na saúde pública

(http://esacproject.net/)

 

Referências

1      Fourth World Conference on Women. Disponível em http://www.un.org/womenwatch/daw/beijing/fwcwn.html

2      World Bank, World Bank eatlas Gender. (2011). Disponível em http://www.app.collinsindicate.com/worldbankatlas-gender/en-us>.

3      Cabieses B and Freel S. Using technological innovation to improve gender equity in public health, Agosto de 2013. Artigo preparado para a plataforma  do pojeto eSAC. Acesse http://esacproject.net/

4      Environmental scan: gender equity public health and tics, Julho de 2013. Artigo preparado para a Oficina Estratégica do Projeto eSAC realizada no período de  01 a 03 de Julho de 2013 em Washington, DC.